PAULO HERKENHOFF
1994

Maria do Carmo Secco é uma fidelidade ao desenho. Se a artista percorreu muitos caminhos, no entanto, em todas as latitudes, o desenho tem sido o fio condutor de sua obra.

Na década de 60, sua pintura convocava o desenho para a função constitutiva da obra. Entre a Pop e a Nova Figuração, Maria do Carmo Secco, com artistas como Anna Maria Maiolino, Wanda Pimentel, Vilma Pasqualini, Anésia Pacheco Chaves e Carmela Gross introduziam uma no­va perspectiva de discussão da con­dição feminina no caráter eminente­mente machista predominante na arte Pop internacional. Em meio ao voca­bulário plástico da publicidade, o desenho minucioso parecia servir como a instância mais eficiente da auto-expressão da mulher. Localizava-se ali onde o sujeito, em meio ao vocabu­lário plástico dos meios de comunica­ção de massas, necessitava afirmar a sua subjetividade, sua singularidade e seu estar no mundo. Em algumas lon­gas pinturas horizontais o espaço dividia-se em planos narrativos como uma história em quadrinhos, com um ritmo alternado entre zonas de cor lu­minosa chapada e zonas de minucio­so desenho em preto e branco.

Era também um interlúdio entre abs­tração e figuração.

Três tempos de desenhos separados coincidentemente por uma década, expõem-se. Três, entre muitos dese­nhos, os escolhidos. Três momentos de passagem em que Maria do Carmo Secco enfrenta seus riscos. O caráter de transitoriedade do dese­nho, a que se refere Mário de Andrade, já não está apenas no ges­to gráfico, mas no próprio fluxo histó­rico de sua linguagem. Nessa esco­lha a artista depara-se com sua capa­cidade de trabalhar o caos e o ex­cesso e a justeza e a ordem.

1972. A letra se anuncia no caos da cidade. Babel de linguagens e gran­de espaço da diferença. Os desenhos desse período estabelecem o arco en­tre a cidade ideal e a real, na anun­ciação da palavra escrita como uma costrução, com seus planos, volumetria, simetrias. Uma A encontra seu contraponto na outra, território do caos. I D até seu D D anagrama da Babel da linguagens C D A, mas é I E a legibilidade possível enquan­to escritura em crise S E C S Secco convoca o olhar migrante para bus­car, nessa cartografia poética, a verti­gem da palavra, livre das regras da sintaxe, como o explorador do continente concreto da página. Seu jogo lúdico reencontra a diretriz, num diá­logo com a razão. É que o olhar, fi­nalmente, parece ter sido pilotado pela necessidade de sentido. 

1982. A obra de Maria do Carmo Secco se reconduz na direção da pin­tura. Uma série de "desenhos" aciona essa mudança do meio anunciada através da cor. A base física pode ser definida como colagem, território ad­jacente do desenho. O que se faz é a junção heteróclita de gestos secos com função gráfica e pinceladas de vermelhos, de materiais similares e diferenciados na sua manufatura, simultaneamente à convergência de atitudes intelectuais díspares. Secco constrói com papel artesanal cujos rasgos, bordas e trama conformam a latência do orgânico e do afetivo, e com papel industrial, cujo corte reto a faca é o índice racional. A borda do plano, definida no seu corte, ora pre­cisa ora traumática, encontra aí o seu cálculo e o seu drama. O momento de passagem de Maria do Carmo Secco encontra, pois, o seu drama.

1992. Um único gesto de desenho, como uma interjeição intensa, ou uma pausa, pode conter a condensação e a dispersão da energia gráfica, como se o rastro contivesse um trânsito de estado afetivo. Secco olha Mira. Agora, a economia gráfica de Secco confina a essa obra ao momento de emergência do signo com o gesto mí­nimo. Economia, redução do desenho como uma interjeição que se jubilasse com o próprio nascimento da lingua­gem, hipótese da expressão sensível e da razão poética. Quase um sopro. Em três entre outros tempos, a obra de Maria do Carmo Secco é uma crença na tradição moderna do desenho. Se a artista abriga aí a sua síntese, essa exposição, minimamente, a desvela.

Paulo Herkenhoff - Abril de 1994