FREDERICO MORAIS
1999

Pintora, Maria do Carmo Secco, nunca deixou de desenhar. Em sua obra, desenho e pintura sempre mantiveram um diálogo aberto e criativo. A estratégia da artista tem sido a de avançar e recuar, em função das necessidades internas do seu próprio desenho, mas, também, em função de suas próprias indagações existenciais. O avanço se faz quase sempre, no plano da linguagem, como o aparente amortecimento dos temas, enquanto o recuo é imposto pelos temas, como o aparente abandono das emoções lingüísticas. Na verdade, cada recuo é parte do avanço, o tema renovando a linguagem e vice-versa. Em cada um de seus temas, abordados em séries sucessivas (o que acentua a dimensão conceituai de sua reflexão desenhística) a artista evolui da carne ao osso, da emoção ao conceito, do enfoque expressionista à construção.

Três temas interessam a artista em mais de 20 anos como desenhista: corpo, paisagem e casa. Esta se impõe como instrumento de aprendizado do corpo e do mundo.

Aprofundando sempre sua demarche, associa a seguir esta des-construção/ re-construção da casa a idêntico processo no tocante à gramática do desenho, analisando cada um dos seus elementos constitutivos.

A des-construção da casa, como antes, do corpo, como passo para a construção do desenho. Na etapa seguinte, constrói seus desenhos diretamente com o papel, fundindo, num mesmo objeto, suporte e matéria. Tridimensionaliza, com a ajuda da cor, retas, curvas, arabescos, figuras geométricas, distribuindo-as diretamente sobre a parede, onde parecem levitar, liricamente. Constelação de formas. Visualidade pura.

Os novos desenhos, são na verdade, objetos gráficos construídos no e com o papel. São o desenvolvimento coerente de suas propostas anteriores, inclusive no tocante à tríade temática: corpo, paisagem e casa. Podem ser vistos como arquiteturas, abrigos poéticos, ou ainda, como casulos ou ninhos- que irrompem ou se elevam sobre a horizontalidade do papel. Outros pedem a participação lúdica do observador para que a proposta da artista se revele integralmente. Noutros, ainda, a artista depois de superpor e colar as folhas do papel, escava o novo suporte. Linhas e planos se tridimensionalizam, a contemplação cede à participação, a surpresa desloca o habitual, a síntese substitui a narrativa. O tempo se espacializa. Com seus objetos gráficos, Maria do Carmo Secco faz uma releitura do neoconcretismo, ao mesmo tempo que radicaliza o conceito do desenho.

Frederico Morais - Fevereiro de 1999