FREDERICO MORAIS
1967

PINTURAS   1966 -  1967

Maria do Carmo não é apenas mais uma artista a engrossar o número de mulheres que vem dando notável contribuição à arte de vanguarda brasileira. É o aprofundamento formal do tema mulher que dá á sua pintura importância e atualidade. Nestes últimos dois anos sua pintura tem sido uma constante indagação sobre a mulher.

Primeiro, o grito expressionista da mulher, exposta. Aquele sentimento de ser coisa, objeto. Uma cor víscera cobre todo o quadro e a mulher é um corpo disforme, no qual se destaca as ancas, os seios. Ao olhar estúpido do homen, acrescentou-se, hoje, o olhar mecânico da TV ou do cinema, A câmara passeie o corpo exposto e a mulher se 6ente mais que nunca desamparada e nauseia-lhe o corpo.

Este sentimento, entretanto, é que lhe abre o caminho para uma tomada de consciência social, para a certeza de que somos manipulados pelos veículos de comunicação massiva. A família, de costas para o público, olha, passivamente, a TV. Sem reação, sem protesto, sonambúlica. No centro do vídeo (da tela) aparece a face do ídolo, o rosto, a boca e a histeria ié-ié-ié, fazendo ecoar um grito vazio, de alienação. Ou, à maneira das fotografias, a linha-luz contorna o perfil e o violão do cantor. A artista vacila, acredita, por um momento no mito.

De novo a volta a si mesma. Não mais o medo do corpo exposto, mas corpo entrelaçado em outro corpo, braços se abraçando, olhos se olhando. A segurança ou ilusão do amor. Mas desse ritual de beleza começa a surgir um halo de tristeza e de solidão. Ressurge o rosto da mulher, olhos, cílios, pupilas, tudo em primeiríssimo plano cinematográfico. Há qualquer coisa de nostálgico naqueles rostos brancos de mulher perdidos na solidão de seu próprio espaço, como que clamando compreensão, confessando solidão, "revelando o medo de um futuro incerto e vago. O rosto parece se destacar do corpo e dá amplitude psicológica ao quadro. O sentimento de frustação e cansaço inutiliza os gestos e paraliza o corpo. Frases ressoando: esta vida seria mesmo um inferno a dois, o homem ser ontologicamente solitário, desamparado. A cor perde importância, as figuras são apenas insinuadas naquele inverno branco, que parece repentinamente crescer atingindo proporções cinematográficas, o tamanho dos anúncios, ou é um relevo sinuoso o triste, como na sua bem sucedida experiência da caixa.

Mas o intimismo dessa fase cede novamente lugar à necessidade de um aprofundamento crítico/social do tema em consonância com as profundas modificações trazidas pela ciência e tecnologia a linguagem da arte, melhor, ao modo de ver do homem atual. Assim, na sua produção mais recente (e a mais significativa) ao invés da figura submeter-se a superfície, é esta que impossibilitada de aprofundar-se, espaço adentro, que se deixa dominar. As horizontais e verticais do •plano básico" do quadro não têm mais a mesma tranqüilidade de uma composição tridimensional. As horizontais alongam-se em direção ao infinito até que pressionadas pela figura, irrompem para o alto, criando a instabilidade do plano e a descontinuidade do espaço. A ampliação dos detalhes e seu isolamento em comportamentos estanques da tela, contudo visto de um só lance, como um flash que espouca, corresponde igualmente a necessidade de uma linguagem não linear, lógica. Assim como antes, em diversas fases, Maria do Carmo isolou o tronco da cabeça e esta dos membros, rompendo com a estrutura tridimensional do corpo para conseguir um agravamento emocional do assunto, agora, mostra tudo, simultaneamente, temporalizando o espaço ao invés de espacializar o tempo. A ausência de profundidade dinamiza a superfície e o espectador no lugar de um espaço reduzido artificialmente a um sistema cartesiano, tem diante de si, focos de atração e interesse que se interelacionam criticamente (donde a volta significativa afigura, a uma nova figura) num contínuo espaço - temporal.

Frederico Morais - 1967