FREDERICO MORAIS
1966

A MULHER EXPOSTA

Como o homem vê a mulher? Olhos, boca, lábios, mulher exposta, ancas, coxas, seios, púbis, mulher exposta, nua, como a "tresloucada suicida" no passeio público. Nudez exposta, sem defesa. Esteatopígica, calipígia, obesa, abundante, carne exposta, como o boi no açougue. (Referência histórica: "Boi Esfolado", de Rembrandt) . Porque só o que está abaixo do umbigo, o corpo e não a razão, porque não a cabeça que pensa, olha, um coração que bate, sente, e vibra, e ama, e sofre. A razão é coisa masculina? Só o homem é sujeito?

A mulher está exposta na pintura de Maria do Carmo Secco. Ela é a questão (aliás, só a mulher questiona a mulher, o homem não!) Não pode a mulher ser apenas mulher. A mulher é sempre mãe, matriz — "molia in utero" — eterna, obrigatoriamente, uma vênus que fecunda e pare. Mulher-coisa, mulher-objeto, como as vênus de Willendorf, de Lespugne, de Laussel. Ou será também, e apenas, o repouso do guerreiro...   e de outros?

Maria do Carmo Secco expõe a mulher, como o homem a vê. Por isso sua pintura não é feminina, ou é verdadeiramente feminina, na medida que sendo as conotações tradicionais da palavra: graciosa, delicada, bem comportada, não é isso que vemos em seus quadros, nem esse o sentido atual da palavra. Sua pintura choca, impactua, chega mesmo a irritar, nausear, e é assim que ela revela um certo medo das ancas, que ela protesta e diz não à mulher exposta ao homem, à multidão, às câmaras de televisão e do cinema. As cores são deliberadamente
"feias" e cruas. Um sangue lavado, esbranquiçado de vísceras. E tudo na figura é violentamente deformado. Do corpo feminino sobra, às vezes, apenas as ancas, um só seio, um rosto incompleto, um torso seccionado em duas ou mais imagens. Nenhum pudor do primeiro plano: tudo ocorre e é dito na superfície, e descontinuamente, segundo a fenomenologia da percepção moldada pelos modernos processos de comunicação visual (de massa) . O espaço não é contínuo e sistemático como no Renascimento, mas espasmódico, tudo ocorre como se estivéssemos diante de uma montagem cinematográfica, jornalística ou televisionada. Eis aqui um aspecto importante de sua pintura: o perfeito entendimento entre a forma e conteúdo, entre significado e significante, isto é, a
necessidade de expor o tema sem peias ou sutilezas, exigiu um tratamento formal adequado. Recorde-se o famoso "slogan" de Maiacowsky:  não há forma revolucionária, sem conteúdo revolucionário. O enfoque que MCS dá ao assunto é novo, pois se a mulher sempre esteve exposta e indefesa, hoje sua situação agravou-se: ao olho humano acrescentou-se o olho mecânico, que retransmite o que vê a milhares de outros olhos, ávidos  de  carne,   ávidos  de  mulher.

MCS usa, pois, a linguagem de sua época: nas suas telas, o corpo é seccionado em "quadrinhos" como na película ou nos "comics" ou toma todo o vídeo da tv.

Dei ênfase a este aspecto da sua pintura, que não é absolutamente o único, como se verá na exposição, porque é o melhor resolvido. Mais do que isso corresponde à necessidade de um desabafo, a uma deliberação inadiável de discutir o tema. Uma análise destes três ou quatro anos de intensa atividade — após longa inatividade — mostrará, inicialmente, um mundo de manchas e sombras que pouco deixava transparecer do tema que serviu de ponto de partida: casas. Das manchas incertas e imprecisas, surge bruscamente o corpo exposto da mulher, um grito, um protesto, sob a forma de um expressionismo violento, quase fisiológico. Relacionado com a tv, o tema adquire novos contornos, e acaba por dominar por dentro e por fora, sua pintura. Desabafo, o assunto ameaçava, antes, encobrir a própria pintura, o que não ocorre mais, mesmo não tendo desaparecido totalmente o assunto. O vídeo da tv assume, agora, o primeiro plano, no centro da tela, enquanto a família, passiva, assiste — de costas para o público — ao que se passa. Dia e noite, todo o dia, num total condicionamento. A composição adquire rigor, coesão, ordem, e é ao mesmo tempo mais simples. A objetividade da linguagem amplia o conteúdo semântico do quadro: o que está em questão, doravante, é o condicionamento do homem moderno pela cultura de massa, pelos atuais — e fascinantes — meios de comunicação visual.

"Novo Realismo", ou "Pop2", não importa a denominação. Importa, sim, saber que Maria do Carmo Secco não está usando a arte como fuga, nem dando ênfase a conteúdos românticos e escapistas. Instalou-se no centro mesmo da realidade  —  o quadro,  a vida  —  de nossa época.

Frederico Morais - 1966