FERNANDO COCCHIARALE
1983

Após dez anos de utilização do desenho como meio privilegiado de expressão, Maria do Carmo Secco retoma, em 1980, a pintura, interrompida desde o fim dos anos sessenta e da Nova Figuração.

Nesse momento a articulação entre desenho e pintura é não só uma decorrência lógica de seus trabalhos anteriores, como também, a questão central de sua obra - crítica da relação clássica entre desenho e pintura, e, da paisagem que daí resultava.

Desde o renascimento, pelo menos, desenho e pintura se articularam hirárquica e inseparavelmente. A boa pintura era entendida, em grande parte, como decorrente do desenho. A ele cabia a ordenação prévia das figuras e, também, a sua estruturação morfoló-gica - anatomia, volume, movimento...

Por causa desta concepção, o desenho ficava a meio caminho do objetivo maior a ser atingido - a pintura, sob a qual deveria desaparecer enquanto arcabouço que era.

Nas primeiras pinturas de 1980, "Sobre a Paisagem", a artista combina de várias maneiras os elementos gráfico e pictórico. Ora no mesmo suporte, ora em trabalhos independentes mas relacionados, estas combinações jamais anulam a tensa autonomia de ambos. Percebe-se claramente o que é pintura e o que é desenho que coexistem articulados sem que um suprima o outro.

O espaço, nesta fase de retomada da pintura, organiza-se de modo semelhante ao dos desenhos - a tela dividida ao meio, suporta o gráfico e o pictórico que separados pelo corte mantém-se em tensão permanente.

A   cor  cumpre,   no  caso,   um  papel  de reforço das oposições que Maria do Carmo investigava. Vermelhos e verdes predominam enfatizando a divisão vertical da tela em áreas ambivalentes.

Nas pinturas atuais o vermelho, o amarelo e suas derivações substituíram as cores usadas anteriormente. A economia cromática é a mesma, mas a mudança do predomínio das cores complementares para o das primarias aponta-nos, diretamente, para novas maneiras de tratar o espaço. Os tons quentes intervém na construção dos espaços que podem, agora, ser diferenciados, em três níveis.

Nos primeiros deles as pinturas organizam seu espaço pelo corte vertical -característica freqüente no trabalho da artista desde 1976 -dividindo o suporte em duas metades iguais. Contudo, apesar da evidente afinidade formal com obras do passado, aparece um novo elemento - corte horizontal - que combinado ao anterior distribui o espaço em quatro seções. Ligeiramente desencaixadas, estas seções sugerem-nos a série "A Poética da Casa", de 1978, quando Maria do Carmo carimbava o papel com os módulos do Pequeno Engenheiro - brinquedo composto de diversas peças de madeira para construir casas, edifícios, etc. A idéia de jogo de montar, literalmente utilizada nestes desenhos reaparece na pintura como uma referência esclarecedora. Aqui não existe mais, rigorosamente, uma parte de cima ou de baixo, uma parte esquerda ou direita. A tela, em qualquer posição preserva, essencialmente, suas características espaciais.

Em um outro conjunto de pinturas da nova fase, o suporte é ocupado a partir de uma estrutura semicircular, desenvolvida na série "Casa/Corpo" (1981-1982). Centrada na tela a estrutura-oca destes trabalhos abriga a confluência de uma constante na obra da artista - a alternância entre um eixo mais construtivo e aquele que tangencia os problemas da figuração. Sob a cúpula-casa, coexistem no espaço a quadrícula diagonal - surgida em 1974 - e formas que a cortam horizontalmente, lembrando em sua organicidade, fibras musculares.

A horizontalidade remete-nos à paisagem tão presente nas primeiras pinturas da retomada de 1980. Reforçando esta alusão figurativa, o sombreado das formas torna-as tridimensionais. A contraposição entre estas formas orgânicas e a bidimensionalidade do resto da pintura, indica-nos a confluência dos dois eixos mencionados anteriormente.

Alguns trabalhos apresentam também, uma nova questão espacial: o sangramento da pintura pelos lados do suporte. Partindo da quadrícula diagonal no centro da tela a pintura avança no suporte tocando seus limites, obrigando o espaço da obra a confrontar-se diretamente com o espaço real, exterior.

Nas pinturas agora apresentadas, culmina um processo de transformação da obra de Maria do Carmo Secco. Na proposta anterior, cujo núcleo consistia na discussão da relação desenho/pintura, a artista muitas vezes desenhava sobre a tela. Agora, aparece um caminho que claramente a afasta dessa discussão. Espaços possíveis - reais e pictóricos - se tangen-ciam na busca de um contato questionador.

Fernando Cocchiarale - Julho de 1983